Nuvens Passageiras



Sábado, 24 de Setembro  PATCH


Nuvens Passageiras Cristina Regadas


com a colaboração de Lauren Moya Ford




“This will be the title of the exhibition in Patch: Nuvens Passageiras. It means Drifting Clouds, or Passing Clouds.

- At first I thought it meant "New Passengers," which also seems fitting. 

It is indeed. They are passengers, travellers. An ocean and clouds between them. Distance is matter after all! Can't wait to read your thoughts about clouds.”

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No centro da galeria, construí um círculo de proteção. Do que aprendi através da história, os círculos serviam para adorar o sol ou a lua, homenagear os mortos, proteger as colheitas, proteger do mal. Mas, na verdade, ninguém sabe. Em alguns rituais constroem-se no sentido dos ponteiros do relógio. Foi assim que fiz. Cada vez que vou lavar os pincéis trespasso-o e penso: “será que não devia?”... imagino o tempo que leva a criar uma superstição e como foram inventados os rituais. 
Fui recolhendo as pedras da Foz do Porto durante alguns meses. São pesadas, por isso transporto apenas 8 de cada vez. É neste pedaço de costa que se encontram algumas das mais antigas rochas de Portugal. Há mesmo um percurso geológico. Têm cerca de 580 milhões de anos, o que aparentemente significa que são do Paleozoico (ou de uma Era anterior, mas não estou certa…). Tenho observado o mar a bater nas rochas e é isso que se traduz em tempo para mim. Quantas ondas e marés para criar aquelas formas?
Essa formação circular contém algumas peças que eu própria criei. Algumas têm marcadas as linhas da minha mão, outras estão cobertas por folhas de plantas que crescem junto à casa da minha avó. Algumas têm uma cavidade que corresponde à forma da base do meu polegar. 
Daquilo que a Terra criou, gostaria de passar para o que o Homem criou.

Há uma mesa. Nela, coloquei alguns livros. Escolhi as páginas que gostaria de mostrar. Os livros são sobre história, zoologia, geologia, oceanografia, religião. Sobre a civilização Grega, os Astecas. Um dos livros é o que me deixaste da última vez que vieste ao Porto, antes da partida para o Texas - “Misterios del Mundo”. Um ou dois romances, passados no Porto. “A poética do espaço” de Gaston Bachelard. “Uma breve história do tempo” de Stephen Hawkings. Talvez alguns mais.
Vou dispor as fotografias que tirámos juntas em diálogo com os livros. As que sugeriste, que por acaso, foram também a minha primeira escolha, e algumas mais. Algumas são natureza-sobre-natureza.
Tenho alguns objetos que penso pertencerem também a esta composição, mas talvez seja uma outra coisa que preciso de pensar ainda. Também há outras pedras, mais pequenas, do tamanho de peças de xadrez. De um lado pedras brancas, do outro pedras negras. Podemos andar à volta da mesa, o que torna as fotografias menos abstractas, uma vez que as nossas câmaras usam o filme em sentidos opostos.

As paredes ao fundo da sala terão pinturas monocromáticas. Tinha comigo pequenas fotos do céu que tirei há alguns anos, mas afinal já as tinha memorizado. Na verdade não seria capaz de fazer algo tão pictórico. Adoro o movimento na pintura e a maravilhosa sensação de misturar cores. Assim, haverá três pinturas na parede frontal e duas nas laterais. Colocarei também algumas fotos (nas laterais perto das pinturas) do mar e das rochas.

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- Há um poema Asteca que se chama “Só como uma nuvem”; e este poema Maia:

TOCHIN IN METZTIC

Yohualtotomeh
inchan omanqueh:
cenca quiahuia yohualnepantla.
In ihcuac oyahqueh in tlilmixtli,
yohualtotomeh patlantinemih,
azo quittayah tochin in metztic.
Nehhuatl huel oniquimittac
in yohualtotomeh
ihuan tochin in metztic.

EL CONEJO EN LA LUNA

Los pájaros de la noche
se quedaron en su casa;
mucho llovía a la mitad de la noche.
Cuando las nubes negras se fueron,
los pájaros estuvieron revoloteando,
tal vez veían al conejo en la Luna.
Yo pude contemplar
a los pájaros de la noche
y también al conejo en la Luna.

Santa Teresa de Ávila descreveu assim as suas visões:: “Quando me vi coberta de lágrimas, que derramaram sem dor, tão rápida e violentamente que poderiam ter caído de uma nuvem no céu, percebi que não era um sonho” 

Lauren Moya Ford